MARGARIDA MARECOS

                                      soprano

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Crítica de Discos

Jornal Público, 14 de Janeiro de 2005

por Manuel Pedro Ferreira

 

O Fim - Ópera Íntima

Carlos Marecos

Vários intérpretes

Edição de autor

<http://marecos.no.sapo.pt>

64' 15"

Registo sonoro da mais recente obra cénica do compositor Carlos Marecos, com libreto de Paulo Lages sobre a peça "O Fim" de António Patrício, conta com a participação da soprano Margarida Marecos (Rainha), do actor Guilherme Filipe e do maestro Humberto Castanheira, à frente de um pequeno grupo de instrumentistas e de três recitantes.

Trata-se de um exemplo particularmente bem conseguido de teatro musical, em que a conjugação polifónica de texto declamado e texto cantado, com um envolvimento discreto mas eficaz da música instrumental, produz um resultado estético tão inusitado quão cativante.

[...]

Margarida Marecos tem uma dicção de notável clareza, unida a uma voz tecnicamente segura, de timbre bonito e homogéneo. Guilherme Filipe é convincente, evitando o exagero. Os restantes intervenientes demonstram comparável profissionalismo.

A gravação, de José Fortes, é transparente, equilibrada, espaçosa. É sintomático da actual situação que um disco de conteúdo tão significativo e tão bem produzido não conste de um catálogo comercial.

 

Manuel Pedro Ferreira

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Jornal de Letras, 15 a 28 de Março, 2006

por Maria Augusta Gonçalves

 

Carlos Marecos, O Fim - Ópera Íntima,

dir. Humberto castanheira,

ed. autor, 64’ 15’’

 

A intimidade da loucura

António Patrício e a tremenda força poética de O Fim estão na base da ópera de Carlos Marecos. É uma «ópera íntima», leal à expressão do escritor que marcou o simbolismo com a dimensão trágica da saudade, e ao carácter profético do texto, publicado no crepúsculo da monarquia e no auge da degradação do sistema.

Carlos Marecos estrutura a obra sobre duas vias ou dois quadros - um, o da Rainha, papel lírico, cantado; outro, o Desconhecido, dito por um actor. A conjugação as duas linhas estabelece a tensão e a proximidade ao drama. O carácter íntimo de O Fim remete a obra de Carlos Marecos para modelos primordiais da ópera. A expressão, claro, é contemporânea, única, actual. Mas, ao mesmo tempo, afigura-se menos distante das referências da Camerata Fiorentina e dos modelos primordiais da ópera, do que dos posteriores. O espírito de Monteverdi, aliás, parece não andar longe, em particular nas secções em que o clarinete ou a trompa sobem à «boca de pano», pressentindo-se o papel determinante da música na acção.

O Fim, ópera íntima, materializa uma emocionante leitura do texto de António Patrício. E a música de Carlos Marecos tem a lucidez de não temer o que é próximo e íntimo na loucura. Na interpretação destacam-se a soprano Margarida Marecos, o actor Guilherme Filipe e, entre os músicos, Manuel Jerónimo, clarinete, Ângelo Caleira, trompa, Francisco Sassetti, piano, e Susana Nogueira, violino.

 

MARIA AUGUSTA GONÇALVES